Inteligente ou Esforçado? O que acontece quando você elogia a inteligência de uma criança.

por  em terça-feira, abril 17, 2012, do site: Update or Die! 

Gabriel é um menino esperto.
Cresceu ouvindo isso.

Andou, leu e escreveu cedo.

Vai bem nos esportes.

É popular na escola e as provas confirmam, numericamente e por escrito, sua capacidade.

“Esse menino é inteligente demais”, repetem orgulhosos os pais, parentes e professores. “Tudo é fácil pra esse malandrinho”.

Porém, ao contrário do que poderíamos esperar, essa consciência da própria inteligência não tem ajudado muito o Gabriel nas lições de casa.

– “Ah, eu não sou bom para soletrar, vou fazer o próximo exercício”.

Rapidamente Gabriel está aprendendo a dividir o mundo em coisas em que ele é bom, e coisas em que ele não é bom.

A estratégia (esperta, obviamente) é a base do comportamento humano: buscar prazer e evitar a dor. No caso, evitar e desmerecer as tarefas em que não é um sucesso e colocar toda a energia naquelas que já domina com facilidade.

Mas, como infelizmente a lição de casa precisa ser feita por inteiro, inclusive a soletração, de repente a auto-estima do pequeno Gabriel faz um… crack.

Acreditar cegamente na sua inteligência à prova de balas, provocou um efeito colateral inesperado: uma desconfiança de suas reais habilidades.

Inconscientemente ele se assusta com a possibilidade de ser uma fraude, e para protegê-lo dessa conclusão precipitada, seu cérebro cria uma medida evasiva de emergência: coloca o rótulo dourado no colo, subestima a importância do esforço e superestima a necessidade de ajuda dos pais.

A imagem do “Gabriel que faz tudo com facilidade” , a do “Gabriel inteligente” (misturada com carinho), precisa ser protegida de qualquer maneira.

Gabriel não está sozinho. São muitos os prodígios, vítimas de suas próprias habilidades de infância e dos bem intencionados e sinceros elogios dos adultos.

Nos últimos 10 anos foram publicados diversos estudos sobre os efeitos de elogios em crianças.

Um teste, realizado nos Estados Unidos com mais de 400 crianças da quinta série (Carol S. Dweck / Ph.D. Social and Developmental Psychology / Mindset: The New Psychology of Success), desafiava meninos e meninas a fazer um quebra-cabeças, relativamente fácil.

Quando acabavam, alguns eram elogiados pela sua inteligência (“você foi bem esperto, hein!) e outros, pelo seu esforço (“puxa, você se empenhou pra valer hein!”).

Em uma segunda rodada, mais difícil, os alunos podiam escolher entre um novo desafio semelhante ou diferente.

A maioria dos que foram elogiados como “inteligentes” escolheu o desafio semelhante.

A maioria dos que foram elogiados como “esforçados” escolheu o desafio diferente.

Influenciados por apenas UMA frase.

O diagrama abaixo mostra bem as diferenças de mentalidade e o que pode acontecer na vida adulta.

O Malcom Gladwell tem um ótimo livro sobre a superestimação do talento, chamado “Fora de Série” (“outliers”). Lá aprendi sobre a lei das 10 mil horas, tempo necessário para se ficar bom em alguma coisa e que já ensinei pro meu filho.

Se você tem um filho, um sobrinho, ou um amigo pequeno, não diga que ele é inteligente. Diga que ele é esforçado, aventureiro, descobridor, fuçador, persistente.

Celebre o sucesso, mas não esqueça de comemorar também o fracasso seguido de nova tentativa.

 

Para saber mais: The New Psychology of Success (http://news.stanford.edu/news/2007/february7/dweck-020707.html)

 

3 comentários em “Inteligente ou Esforçado? O que acontece quando você elogia a inteligência de uma criança.

  1. Olá, muito boa postagem!
    Eu já tinha visto essa pesquisa das crianças e encontrei este post aqui justamente quando estava procurando a referência 😉

    Depois que li sobre essa questão com as crianças, não tirei mais isso da cabeça, sobre “talento x estudo”, e espalho geral esse conceito =D

    Eu sou um exemplo dessa situação, sempre fui muito elogiado em casa quando criança e tinha muita facilidade na escola, mas senti uma dificuldade imensa quando fiz faculdade e foi quando me dei conta do problema. Isso foi uma falha, inconsciente, eu reconheço, da família, mas muito da escola também, não é verdade?

    Sobre a questão da lei das 10 mil horas, eu vi uma palestra no TEDx do Josh Kaufman. Ali ele diz que, depois de uma longa pesquisa sua sobre “quanto tempo é necessário pra ser BOM em alguma coisa”, ele encontrou que a literatura propagou uma distorção de significados, transformando o que era somente BOM (que era o que ele queria de fato saber) em EXPERT, nível de habilidade o qual, na verdade, é o que se adquire com as 10 mil horas, segundo ele. Então ele diz que pra ser “só bom”, depois de mais pesquisar, concluiu que, nesse caso, são necessárias, porém, 20 horas apenas. O_O

    Aí ele mostra um gráfico de “nível de perfomance x tempo de estudo” com uma exponencial (crescendo no jeito p/ cima -> p/ direita), indicando que o “vértice” da linhas seriam as tais 20 horas. Nesse ponto, interpretei eu, é onde já se aprendeu toda a habilidade necessária pra ser bom aos olhos de um leigo, pra se executar a performance de modo satisfatório. Passando disso, é onde começaria a se aprender lentamente as mais profundas técnicas relacionadas à habilidade em questão, até que, no caso das 10 mil horas, o indivíduo já é um mestre.

    Seria isso mesmo?

    Bem, parabéns pelo trabalho aqui e agradeço a atenção. Abraço.

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