Essa Tal de Terapia de Aceitação e Compromisso

Por volta do segundo ano de consultório me dei conta de que o que eu sabia não bastava. De que minhas análises não eram o suficiente e, principalmente, de que as palavras que eu conhecia não alcançavam a profundidade do sofrimento da pessoa sentada a minha frente.

Depois de feitas as análises funcionais, eu me questionava sobre o que fazer com as emoções e, sobretudo, em como utilizá-las em direção aos objetivos terapêuticos. Eu, como muitos colegas analistas do comportamento, nunca acreditei que a redução de sintomas emocionais deveria ser o foco principal da terapia.

Mas confesso que me perdia em meio às emoções, sensações e significados que preenchiam aqueles 50 minutos. E o que parecia claro e óbvio para mim, se desconstruía nos conteúdos das falas e na intensidade do sofrimento do outro.

Assim, as perguntas acumulavam-se: como romper com o comportamento verbal, as vezes tão distante das contingências? Como alterar a função de um evento privado aversivo, a ponto dele tornar-se uma resposta emocional que sinalize que o reforço maior esta a caminho?

Como dar um significado maior à terapia e à vida em si para que se possa abrir espaço para o mosaico de experiências que significa viver.

Foi então que encontrei alguns textos do Steven Hayes, que foram seguidos de muitos outros, de muitos outros autores. Com certo ceticismo, levei alguns conceitos para o consultório e deixei que a experiência conduzisse minha curiosidade

Estudar a ACT tem sido uma jornada interessante. É uma abordagem nova e em construção, e isso é interessante. Não há estudos que indiquem que a ACT seja hierarquicamente superior a nenhuma outra abordagem comportamental e não creio que este seja objetivo da comunidade acadêmica da área. Mas foi a abordagem com a qual me identifiquei e tenho prazer em apresentar para vocês nesta coluna.

A Terapia de Aceitação e Compromisso (dito em inglês, ACT) é uma das terapias mais representativas da chamada Terceira Onda das Terapias Comportamentais (ver Hayes, 2006 para saber mais sobre as três ondas; e ver Vandenberghe, 2011, para saber sobre o contexto no qual se desenvolveram as terapias comportamentais no Brasil).

As terapias de terceira onda caracterizam-se por serem particularmente sensíveis ao contexto e às funções dos fenômenos psicológicos e não apenas a sua forma ou conteúdo. Os tratamentos tendem a buscar a construção de um repertório amplo, flexível e eficaz.

Assim, as terapias não são dirigidas especificamente para a redução de sintomas ou para o tratamento e psicopatologias específicas. Caracterizam-se pela inserção contextual e sócio verbal dos problemas e a análise funcional dos eventos privados, destacando o papel do comportamento verbal na origem do sofrimento humano (Conte, 2010; Vandenberghe, 2011; Perez-Alvarez, 2006).

As terapias de terceira geração mais relevantes neste cenário são a Psicoterapia Analítica Funcional (Kohlenberg & Tsai, 1991), a Terapia Comportamental Dialética (Linehan et al., 1999) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (Hayes, Strosahl & Wilson, 2011).

A ACT, surge de uma vertente filosófica chamada Contextualismo Funcional (Hayes, Hayes & Reese, 1988). Tal abordagem filosófica caracteriza-se por ser monista, não mentalista, funcional, não reducionista, ideográfica e por dividir com o Interbehaviorismo de Kantor e com o Behaviorismo Radical as mesmas influências filosófica (Luciano, Valdívia, Gutierrez, Páez-Blarrina, 2006; Twohig, 2012.; Dougher & Hayes, 2000).

A unidade de análise do Contextualismo Funcional é o organismo como um todo comportando-se de acordo com elementos históricos e contextuais – pensamentos, sentimentos e ações – desenvolvendo-se ao longo do tempo e emergindo em um contexto específico em conformidade com uma história individual e com uma função atribuída na regulação do comportamento (Dougher & Hayes, 2000, Luciano, Valdivia, Gutiérrez, & Páez-Blarrina., 2006).

Os estudiosos da ACT rejeitam a ideia de que os pensamentos e sentimentos causam ações porque os eventos privados estão inseridos num contexto, e até que este contexto seja especificado, o objetivo de predizer e influenciar o comportamento não pode ser alcançado. Uma vez que o contexto é especificado, o próprio fato de que estes eventos privados tem significados específicos dentro de determinados contextos, demonstra que os mesmos são variáveis dependentes (tal como as ações). Assim, os eventos privados são respostas à eventos ambientais e não possuem uma relação causal independente. As tais causas mentais do comportamento são admitidas como inerentemente incompletas até que as variáveis contextuais sejam especificadas.

O interesse é dirigido ao contexto histórico situacional que origina os eventos privados e a forma como pensamentos, sentimentos e ações relacionam-se entre si (Hayes et al., 2011).

Assim, um evento ambiental pode evocar um determinado evento privado e este, por sua vez, pode influenciar uma determinada ação, mas a causa do comportamento ainda está no ambiente.

Exatamente por este motivo, pensamentos e sentimentos são elaborados através de técnicas de atenção plena (Mindfulness) e aceitação, ao invés da reestruturação cognitiva e equivalentes.

Afinal, por não assumir que os eventos privados são causa do comportamento, o foco não está em mudar tais eventos, mas sim em mudar a relação do indivíduo com seu mundo privado. Para isso, lhe é ensinado a responder ao eventos externos (como fazer as coisas que lhe importam), enquanto cadeias de respostas privadas se sucedem (sejam elas aversivos ou não). O objetivo final é tornar o individuo menos sensível a tais eventos privados e mais sensível às reais contingências em vigor (Twohig, 2012).

O sofrimento, segundo a ACT, é fruto da linguagem e a mesma é compreendida com base nos estudos baseados na Teoria dos Quadros Relacionais, que será abordado no próximo artigo.

 Desirée da Cruz Cassado

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Compulsão alimentar

Se você não tem liberdade para optar entre comer ou não comer… ATENÇÃO!!! Pode ser um sinal de Compulsão Alimentar

Se deliciar com um pedaço de torta ou chocolates não é nenhum pecado. Pode até ajudar a relaxar depois de um dia estressante. Mas quando a pessoa não consegue parar de comer até que o alimento acabe e nem assim se sente satisfeito, tendo muitas vezes a impressão de ser um “saco sem fundo”, o problema pode não ser simplesmente gula.

Chamamos compulsão alimentar o distúrbio caracterizado por um excesso alimentar acompanhado de perda de controle.

A pessoa sente “urgência” em comer, um impulso incontrolável que ocorre contra a vontade e apesar dos sinceros propósitos da pessoa em se controlar.

O alvo preferido são os doces e chocolates, isso porque estimulam a produção de serotonina, substância do cérebro ligada à sensação de prazer, e com isso, alivia a depressão e a ansiedade.

Em público, os comedores compulsivos, geralmente, apresentam comportamento alimentar normal, inclusive utilizando alimentos diet. Preferem comer sozinhos já que reconhecem seus exageros e muitas vezes se envergonham disso.

Muitos comedores compulsivos relatam que a compulsão é ativada por uma variação importante do humor, como a depressão e a ansiedade. Embora nem todos consigam identificar esses gatilhos com precisão, relatam um sentimento inespecífico de tensão, que é aliviada pelo comer excessivamente. Outros descrevem que nos momentos de compulsão têm a sensação de estarem aéreos, como se saíssem um pouco de si mesmos. Grande parte desses indivíduos comem durante todo o dia, sem planejar refeições, o que explica a obesidade presente em 75% dos casos diagnosticados, além das demais patologias resultantes como por exemplo, colesterol, triglicérides, diabetes, etc.

É possível apontar como traços de personalidade comuns nesses pacientes: perfeccionismo, baixa auto-estima, impulsividade, pensamentos dicotômicos do tipo “tudo ou nada” e “total controle ou total descontrole”.

Comedores compulsivos devem ser tratados diferentemente daqueles que simplesmente “comem demais”. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado da compulsão alimentar, permitirá o controle do comportamento alimentar e possibilitará a consequente re-orientação nutricional necessária. Pode ser necessário, além da psicoterapia, o envolvimento de outros profissionais especializados como: médico, endocrinologista, nutricionista ou psiquiatra, trabalhando juntos com o objetivo de promover ao paciente um maior bem-estar.

É importante enfatizar que, qualquer tratamento que foque apenas a perda de peso mediante dieta hipocalórica será fadado ao insucesso. Mais do que isso, a perda de peso deverá ser conseqüência do auto-controle.

Devido aos fatores psicológicos desencadeantes e mantenedores da compulsão alimentar, faz-se primordial o tratamento psicoterápico. Dentre vários tipos de terapia disponíveis, a terapia cognitivo-comportamental é a que aponta melhores resultados. Trata-se de uma psicoterapia de curto prazo, que enfoca vários aspectos do problema, pensamentos distorcidos como a auto-avaliação centrada no peso e forma do corpo, baixa auto-estima, perfeccionismo, hábitos alimentares inadequados, fatores que precipitam o “ataque de comer” e os sentimentos relacionados.

A terapia leva o cliente a adquirir maior habilidade para lidar com problemas, maior auto-confiança e auto-controle, encorajamento para sair dessa condição patológica e conseqüentemente proporciona uma melhor qualidade de vida.

Três ou mais dos seguintes critérios devem estar evidentes para que seja feito um diagnóstico de Compulsão Alimentar:

-comer muito mais rapidamente do que o normal;

-comer até sentir-se incomodamente repleto;

-comer grandes quantidades de alimentos, quando não fisicamente faminto;

-comer sozinho, em razão do embaraço pela quantidade de alimento que consome;

-sentir repulsa por si mesmo, depressão ou demasiada culpa após comer excessivamente;

-a compulsão ocorre, pelo menos, dois dias por semana, durante seis meses.

Giovanna Vasconcelos

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A importância do sono

Passamos cerca de um terço de nossas vidas dormindo. Dormir não é apenas uma necessidade de descanso mental e físico, durante o sono ocorrem vários processos metabólicos que, se alterados, podem afetar o equilíbrio de todo o organismo, a curto, médio e longo prazo. Dormir bem, portanto, faz-se necessário para manter-se saudável, melhorar a qualidade de vida e até aumentar a longevidade.

O sono é regido por um relógio biológico ajustado num ciclo de 24 horas (chamamos esse estudo de cronobiologia). Os ponteiros desse mecanismo são moldados geneticamente e sua sincronia depende de fatores externos, como iluminação, ruídos, odores, hábitos, vida social, etc.

Os especialistas acreditam que a principal peça dessa engrenagem é a melatonina – hormônio produzido no cérebro pela glândula pineal. Ele começa a ser secretado assim que o sol se põe, como um aviso para o organismo se preparar para “dormir”. Proporcionalmente o nível de cortisol diminui, a temperatura corpórea cai de 1 a 2 graus, a pressão arterial sofre uma leve queda, a respiração fica mais profunda e os ritmos cardíacos diminuem.

Como o desempenho físico e mental está diretamente ligado a uma boa noite de sono, uma noite em claro traz efeitos devastadores como a coordenação motora prejudicada e a capacidade de raciocínio e memória rebaixada.

Em estudo realizado pela Universidade de Chicago – EUA, onze pessoas com idades entre 18 e 27 anos foram impedidas de dormir por mais de quatro horas durante seis dias. No final do período, o funcionamento do organismo delas era compatível ao de uma pessoa de mais de 60 anos. E os níveis de insulina eram semelhantes aos dos portadores de diabetes.

Em outro estudo realizado pela Universidade de Stanford – EUA, indivíduos que não dormiam há 19 horas foram submetidos a testes de atenção. Constatou-se que eles cometeram mais erros do que pessoas com 0,8g de álcool no sangue (quantidade equivalente a três doses de uísque). Igualmente, tomografias computadorizadas do cérebro de jovens privados de sono mostram redução do metabolismo nas regiões frontais (responsáveis pela capacidade de planejar e de executar tarefas) e no cerebelo (responsável pela coordenação motora). Esse processo leva a dificuldades na capacidade de acumular conhecimento e alterações do humor, comprometendo a criatividade, a atenção, a memória e o equilíbrio.

Enquanto dormimos, acontece uma espécie de “reconstrução”, preparando o organismo para o dia seguinte. O cérebro comanda a produção e a liberação de hormônios como a melatonina e o GH (hormônio do crescimento), cuja produção ocorre predominantemente durante o sono, além de propiciar o crescimento, auxilia no vigor físico e garante longevidade com maior jovialidade. Também regula os níveis de outras substâncias responsáveis pela regeneração de células e cicatrização da pele. As proteínas são sintetizadas em grande escala, tendo como objetivo manter ou expandir as redes de neurônios ligados à memória e ao aprendizado.

Sabemos hoje que o sono se divide em duas categorias: sono REM (Rapid Eye Movements) e NÃO REM (Non Rapid Eye Movements). Durante o período de sono, normalmente ocorrem de 4 a 6 ciclos bifásicos com duração de 90 a 100 minutos cada, sendo cada um dos ciclos composto pelas fases de NREM, com duração de 45 a 85 minutos, e pela fase de sono REM, que dura de 5 a 45 minutos.

As cinco fases do sono

Primeira fase – é a transição entre o estado de vigília e sono. O cérebro produz ondas irregulares e rápidas e a tensão muscular diminui. Se for acordada nessa fase, a pessoa reagirá rapidamente, negando que estava dormindo. Corresponde a aproximadamente 5% do tempo total de sono.
Segunda fase – O sono é leve. A temperatura corporal e os ritmos cardíacos e respiratórios diminuem. Nesta fase, a pessoa cruza definitivamente o limite entre estar acordado e dormindo. Corresponde a 45 – 55% do tempo total de sono.
Terceira fase – O corpo começa a entrar no sono profundo. Os movimentos oculares são raros e o tônus muscular diminui progressivamente. Corresponde a 3-8% do tempo total de sono.
Quarta fase – É o sono profundo, onde o corpo se recupera do cansaço diário. Essa fase é fundamental para a liberação de hormônios ligados ao crescimento e para a recuperação de células e órgãos. Corresponde a 10 – 15% do tempo total de sono.
Sono REM – A atividade cerebral está a pleno vapor e desencadeia o processo de formação dos sonhos. Os músculos ficam hipotônicos, as frequências cardíaca e respiratória voltam a aumentar e a pressão arterial sobe. É o momento em que o cérebro faz uma espécie de faxina geral na memória. Fixa as informações importantes captadas durante o dia e descarta os dados inúteis. Durante o REM, os músculos longos do tronco, os braços e as pernas estão paralisados, mas os dedos das mãos e dos pés podem contrair-se. O fluxo sanguíneo em direção ao cérebro aumenta e a respiração fica mais rápida e entrecortada. REM é a fase dos sonhos vividos. Se a pessoa for acordada aqui, provavelmente recordará fragmentos de suas fantasias. Corresponde a 20 – 25% do tempo total de sono.
Enquanto você dorme…

– Liberação de hormônio – na infância, cerca de 90% do hormônio do crescimento são liberados durante o sono. Crianças que dormem mal têm mais chances de ter problemas no seu desenvolvimento físico.

– Elimina o estresse – uma noite bem dormida evita que o organismo acumule altos teores de cortisona. Esse hormônio produzido pelas glândulas supra-renais, é liberado em situações de estresse e contibui para aquele insuportável mau humor depois de uma noite em claro.

– Reposição de hormônio – o hormônio do crescimento continua sendo liberado mesmo na fase adulta. Embora em doses menores, isso continua acontecendo durante o sono. Em gente grande, ele evita a flacidez muscular e garante vigor físico.

– Imunidade – durante o descanso, o corpo libera as interleucinas: substâncias que ajudam o organismo a se defender de invasores, como vírus e bactérias.

– Apetite em equilíbrio – É durante o sono que o organismo libera maior quantidade de leptina, o hormônio que controla a sensação de saciedade e mantém as pessoas longe dos eventuais ataques à geladeira durante a madrugada.

– Envelhecimento precoce e tumores – Enquanto uma pessoa dorme, o organismo se livra com mais facilidade dos radicais livres, moléculas que podem causar o envelhecimento precoce e até tumores.

– Memória – O sono interfere na regulação térmica do cérebro, a função essencial para o bom funcionamento dos mecanismos de memória e da vida psíquica.

– Fixação de informações – Estudos indicam que a fase do sono REM é responsável pela fixação de informações incomuns e estressantes enquanto o sono NÃO REM (fases 1 a 4) se encarrega das informações de conteúdo emocionalmente neutro.

Dicas para um sono tranquilo:

– Procure manter um rotina em seus horários de deitar e levantar;

– Não durma mais do que o necessário;

– Faça exercícios físicos diariamente;

-Evite estimulantes como refrigerantes à base de cola, café, chocolate;

– Evite o consumo de bebida alcóolica;

– Não fume (a nicotina é estimulante);

– Não coma em excesso antes de deitar;

-Não pense nos problemas e responsabilidades na hora de dormir;

– Relaxe. Tome uma ducha, leia um livro ou ouça uma boa música. Estas estratégias podem chamar o sono mais rápido.

Dormir bem é garantia de uma vida saudável, portanto, empenhe-se nessas dicas!

Giovanna Vasconcelos

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Transtorno do pânico

Transtorno do Pânico – O medo de ter medo

Aspectos históricos

Nossos mitos culturais trazem, profundamente arraigadas, as raízes da experiência de pânico. Conta-se que Pã, o deus grego da natureza, habitava os campos, reinando sobre os rios e árvores. Pã não se enquadrava na imagem popular de um deus, era metade homem metade animal, sua aparência era assustadora. Ele se divertia aparecendo subitamente e causando uma reação intensa de medo (pânico) nas pessoas. Todos que eram perseguidos por ele, dele fugiam, talvez por sua aparência, ou por suas aparições inesperadas (Nardi; Valença, 2005, p.2). Os atenienses ergueram um santuário ao deus Pã, perto da praça pública “ágora”, algumas pessoas tinham medo de frequentar esse lugar, daí a origem do termo agorafobia, para designar o medo de lugares públicos (Caetano, 2001, p.9).

Embora Pã se tenha desvanecido no mito, seu poder é experimentado diariamente por milhões de pessoas.

Sintomatologia e diagnóstico

O transtorno do pânico caracteriza-se pela presença inesperada de ataques de pânico. Sendo esses “ataques” períodos de intenso desconforto, no qual quatro ou mais dos sintomas listados abaixo, segundo o DSM-IV (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), desenvolvem-se de forma abrupta, atingindo o ápice em dez minutos, e costuma se estender por um total de quarenta a cinquenta minutos:

– taquicardia (ritmo cardíaco acelerado);

– sudorese intensa (suor, principalmente na face ou cabeça);

– tremores ou abalos musculares;

– sensação de falta de ar ou sufocamento;

– sensação de “nó” na garganta (ou aperto);

– dor ou desconforto no peito;

– náuseas ou desconforto abdominal (similar à cólica);

– tontura, vertigem ou desmaio;

– sensação de irrealidade (estranheza com o ambiente) e de despersonalização (estranheza consigo mesmo);

– medo de perder o controle de seus atos ou de enlouquecer;

– medo de morrer;

– sensação de anestesia ou de formigamento;

– ondas de calor ou calafrios.

Ainda para se diagnosticar o transtorno do pânico os ataques não podem ser explicados por uma doença física, outro transtorno de ansiedade, nem estarem relacionados aos efeitos de substâncias medicamentosas ou drogas.

Não raro, pacientes com esses sintomas são atendidos na sala de emergência de pronto-socorros, acreditando que estão tendo um ataque cardíaco, isso porque além da semelhança dos sintomas, existe uma sensação de morte iminente. A peregrinação por médicos e hospitais só cessa quando, enfim, o paciente recebe o diagnóstico de transtorno do pânico, que é um problema conhecido, comum e tratável.

Prevalência do Pânico

O transtorno do pânico, é um dos transtornos de ansiedade mais comuns entre adultos, apresentando prevalência em torno de 4,7% segundo National Comorbidity Survey-Replication, (NCS-R) nos Estados Unidos. Sendo mais frequente em mulheres do que em homens, na proporção 3:1.

Pessoas mais freqüentemente acometidas pelo transtorno são adultos jovens (entre 21 e 40 anos). Pacientes com pânico apresentam características de funcionamento psicológico em comum, tais como: alta produtividade profissional, assumem uma carga excessiva de afazeres e responsabilidades, são bastante exigentes consigo mesmos, baixa tolerância à erros ou imprevistos, preocupados, perfeccionistas, excessiva necessidade de controle e aprovação dentre outros. Tais características expõem o indivíduo a uma maior probabilidade de estresse acentuado, que por sua vez colabora para um aumento intenso da atividade de determinadas regiões do cérebro, desencadeando assim um desequilíbrio bioquímico e conseqüentemente o transtorno do pânico.

Conseqüências do Pânico

Se não tratado, o transtorno de pânico tem curso crônico, marcado por períodos de acalmia e outros de reagravamento dos sintomas geralmente seguindo-se a períodos de vida com maior exposição a eventos vitais estressores. (Range, 2001, p.147)

O medo da recorrência dos ataques, a ansiedade antecipatória, faz com que muitas pessoas sintam que não podem continuar trabalhando ou tendo a mesma vida de antes. Quando, por medo de estar sozinho ou não poder ser socorrido caso tenha um ataque de pânico, o indivíduo freqüentemente foge, ou se esquiva de locais públicos ou situações sociais, dizemos que além do transtorno de pânico está presente a agorafobia. O transtorno do pânico com agorafobia limita a exposição à situações cotidianas como estar sozinho, estar em meio à multidão, andar de ônibus, etc. O paciente passa a se sentir dependente daqueles em quem confia, se sentindo seguro somente quando na companhia dessas pessoas.

O transtorno do pânico não prejudica de modo permanente as funções mentais do paciente. Temporariamente, a concentração, a memória, as capacidades intelectuais, o bem-estar, podem ser rebaixadas pelo medo, mas tudo isso pode ser recuperado, e até melhorado com a superação do pânico.

Tratamento medicamentoso

Chamamos de neurotransmissores as substâncias produzidas pelo cérebro que são responsáveis pela comunicação entre os neurônios (células do sistema nervoso). É através dessa comunicação que se formam mensagens que irão determinar a execução de todas as atividades físicas e mentais do nosso organismo. Quando há uma falha ou desequilíbrio na produção desses neurotransmissores (no caso do transtorno do pânico: a serotonina e a noradrenalina), algumas áreas do cérebro podem transmitir informações e comandos incorretos, por exemplo, em uma crise de pânico a informação incorreta alerta e prepara o organismo para uma ameaça ou perigo que na realidade não existe.

O tratamento recomendado, e que atua de forma substancial nas crises, na ansiedade e na prevenção de novas crises são os psicofármacos. Todos os grupos de antidepressivos mostraram-se eficazes, os tricíclicos, os tetracíclicos, os ISRS (inibidores seletivos da recaptação da serotonina) e os IMAOs (inibidores da MAO). Os antidepressivos têm sua eficácia comprovada em outros transtornos comportamentais além da depressão, isso porque atua no equilíbrio da serotonina (neurotransmissor que traz bem-estar ao indivíduo). O tempo de ação terapêutica para antidepressivos geralmente não é inferior a 20-30 dias. Por essa razão, a associação com outro tipo de medicação, os benzodiazepínicos ou ansiolíticos é uma boa estratégia, já que estes sim trazem importante alívio das crises já no início do tratamento.

O tempo deste tratamento vai depender da resposta do indivíduo à medicação e ao tratamento psicoterápico, outra intervenção fundamental para o transtorno do pânico.

Tratamento com TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental)

Sujeito às “informações e comandos incorretos” o organismo do indivíduo com pânico se prepara para um perigo que na realidade não existe. A sensação freqüente de perigo e a interpretação distorcida e catastrófica dos sintomas físicos leva, não raro, o paciente a evitar ou se esquivar de situações nas quais os ataques ocorreram, ou que ele tema que possa ocorrer.

A TCC é um processo de aprendizagem, que ensina ao paciente como reavaliar e reestruturar seus pensamentos de forma mais funcional, em relação à segurança, à avaliação das crises, ao medo de outras crises e à agorafobia, além de fornecer exercícios que facilitem o controle da ansiedade e da própria crise. Modificando a interpretação, modificam-se também os sentimentos (ex: medo, insegurança) e comportamentos (ex: esquiva, evitação) decorrentes desta.

O tratamento cognitivo-comportamental do pânico, conta com várias estratégias (técnicas cuja eficácia tem comprovação científica) que se sobrepõe no que diz respeito às intervenções, dentre elas: o treino de habilidades de manejo de sintomas corporais; o treino respiratório para previnir a espiral do pânico; a ênfase na exposição interoceptiva dos sinais corporais temidos e a eliminação da tendência persistente de interpretar de forma distorcida e catastrófica as sensações corporais.

Vale enfatizar que o transtorno do pânico não afeta permanentemente o funcionamento cognitivo do paciente. Portanto, estando este comprometido com seu tratamento medicamentoso e psicoterápico, suas chances de retomar e tornar sua vida mais saudável e prazerosa são enormes!

Giovanna Vasconcelos

Bibliografia

Barlow, D.H.; Cerny, J.A. Tratamento psicológico do pânico; trad. Maria Cristina Monteiro. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

H Katschnig and M Amering, The long-term course of panic disorder and its predictors, J Clin Psychopharmacol 18 (1998), pp. 6-11S.

Kaplan e Sadock. Compêndio de Psiquiatria . Artmed, 2002.

Rangé, B. (org.). Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

RC Kessler, WT Chiu, O Demler, KR Merikangas and EE Walters, Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication, Arch Gen Psychiatry 62 (2005), pp. 617-627.

Silva, A.B. Mentes com medo: da compreensão à superação. São Paulo: Integrare Editora, 2006.

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Ansiedade patológica

Todos nós já sentimos em algum momento, medo, insegurança, desconforto, sensação de que algo desagradável vai acontecer. E como se não bastasse a ansiedade vem acompanhada de sintomas físicos como sensação de falta de ar, respiração curta, aperto no peito, calafrios, tremores, náuseas. A ansiedade está presente em todas as fases da vida, é um acompanhamento normal do crescimento, das mudanças, das experiências novas, da busca pela identidade. Esta ansiedade é adaptativa e até necessária, pois nos leva a ações de prevenção de perigos. Consideramos ansiedade patológica uma resposta exacerbada (em intensidade e duração) a determinados estímulos. Tais respostas podem, para algumas pessoas, parecer incontroláveis, interferindo em vários aspectos de sua vida, abrangendo seu funcionamento psicológico, social e ocupacional. O tratamento inclui psicoterapia e intervenção medicamentosa, quando necessário.

As teorias comportamentais-cognitivas têm gerado os tratamentos mais efetivos para os transtornos de ansiedade. Exige menos tempo que as demais terapias e seu objetivo terapêutico é claro e concreto: a extinção de hábitos mal-adaptativos e sua substituição por padrões novos apropriados e não provocadores de ansiedade. A pessoa que se submete a terapia comportamental-cognitiva não é “paciente” ou “aquele que recebe a ação de um agente”, mas ao contrário é participativo, uma vez que aprende a entender a maneira como seu pensamento e estado emocional contribuem para o aparecimento destes sintomas e como mudá-los, passando a agir de forma mais funcional frente a uma situação em que poderia surgir a ansiedade, conseguindo, finalmente, manter o controle.

 

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