Transtorno do pânico

Transtorno do Pânico – O medo de ter medo

Aspectos históricos

Nossos mitos culturais trazem, profundamente arraigadas, as raízes da experiência de pânico. Conta-se que Pã, o deus grego da natureza, habitava os campos, reinando sobre os rios e árvores. Pã não se enquadrava na imagem popular de um deus, era metade homem metade animal, sua aparência era assustadora. Ele se divertia aparecendo subitamente e causando uma reação intensa de medo (pânico) nas pessoas. Todos que eram perseguidos por ele, dele fugiam, talvez por sua aparência, ou por suas aparições inesperadas (Nardi; Valença, 2005, p.2). Os atenienses ergueram um santuário ao deus Pã, perto da praça pública “ágora”, algumas pessoas tinham medo de frequentar esse lugar, daí a origem do termo agorafobia, para designar o medo de lugares públicos (Caetano, 2001, p.9).

Embora Pã se tenha desvanecido no mito, seu poder é experimentado diariamente por milhões de pessoas.

Sintomatologia e diagnóstico

O transtorno do pânico caracteriza-se pela presença inesperada de ataques de pânico. Sendo esses “ataques” períodos de intenso desconforto, no qual quatro ou mais dos sintomas listados abaixo, segundo o DSM-IV (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), desenvolvem-se de forma abrupta, atingindo o ápice em dez minutos, e costuma se estender por um total de quarenta a cinquenta minutos:

– taquicardia (ritmo cardíaco acelerado);

– sudorese intensa (suor, principalmente na face ou cabeça);

– tremores ou abalos musculares;

– sensação de falta de ar ou sufocamento;

– sensação de “nó” na garganta (ou aperto);

– dor ou desconforto no peito;

– náuseas ou desconforto abdominal (similar à cólica);

– tontura, vertigem ou desmaio;

– sensação de irrealidade (estranheza com o ambiente) e de despersonalização (estranheza consigo mesmo);

– medo de perder o controle de seus atos ou de enlouquecer;

– medo de morrer;

– sensação de anestesia ou de formigamento;

– ondas de calor ou calafrios.

Ainda para se diagnosticar o transtorno do pânico os ataques não podem ser explicados por uma doença física, outro transtorno de ansiedade, nem estarem relacionados aos efeitos de substâncias medicamentosas ou drogas.

Não raro, pacientes com esses sintomas são atendidos na sala de emergência de pronto-socorros, acreditando que estão tendo um ataque cardíaco, isso porque além da semelhança dos sintomas, existe uma sensação de morte iminente. A peregrinação por médicos e hospitais só cessa quando, enfim, o paciente recebe o diagnóstico de transtorno do pânico, que é um problema conhecido, comum e tratável.

Prevalência do Pânico

O transtorno do pânico, é um dos transtornos de ansiedade mais comuns entre adultos, apresentando prevalência em torno de 4,7% segundo National Comorbidity Survey-Replication, (NCS-R) nos Estados Unidos. Sendo mais frequente em mulheres do que em homens, na proporção 3:1.

Pessoas mais freqüentemente acometidas pelo transtorno são adultos jovens (entre 21 e 40 anos). Pacientes com pânico apresentam características de funcionamento psicológico em comum, tais como: alta produtividade profissional, assumem uma carga excessiva de afazeres e responsabilidades, são bastante exigentes consigo mesmos, baixa tolerância à erros ou imprevistos, preocupados, perfeccionistas, excessiva necessidade de controle e aprovação dentre outros. Tais características expõem o indivíduo a uma maior probabilidade de estresse acentuado, que por sua vez colabora para um aumento intenso da atividade de determinadas regiões do cérebro, desencadeando assim um desequilíbrio bioquímico e conseqüentemente o transtorno do pânico.

Conseqüências do Pânico

Se não tratado, o transtorno de pânico tem curso crônico, marcado por períodos de acalmia e outros de reagravamento dos sintomas geralmente seguindo-se a períodos de vida com maior exposição a eventos vitais estressores. (Range, 2001, p.147)

O medo da recorrência dos ataques, a ansiedade antecipatória, faz com que muitas pessoas sintam que não podem continuar trabalhando ou tendo a mesma vida de antes. Quando, por medo de estar sozinho ou não poder ser socorrido caso tenha um ataque de pânico, o indivíduo freqüentemente foge, ou se esquiva de locais públicos ou situações sociais, dizemos que além do transtorno de pânico está presente a agorafobia. O transtorno do pânico com agorafobia limita a exposição à situações cotidianas como estar sozinho, estar em meio à multidão, andar de ônibus, etc. O paciente passa a se sentir dependente daqueles em quem confia, se sentindo seguro somente quando na companhia dessas pessoas.

O transtorno do pânico não prejudica de modo permanente as funções mentais do paciente. Temporariamente, a concentração, a memória, as capacidades intelectuais, o bem-estar, podem ser rebaixadas pelo medo, mas tudo isso pode ser recuperado, e até melhorado com a superação do pânico.

Tratamento medicamentoso

Chamamos de neurotransmissores as substâncias produzidas pelo cérebro que são responsáveis pela comunicação entre os neurônios (células do sistema nervoso). É através dessa comunicação que se formam mensagens que irão determinar a execução de todas as atividades físicas e mentais do nosso organismo. Quando há uma falha ou desequilíbrio na produção desses neurotransmissores (no caso do transtorno do pânico: a serotonina e a noradrenalina), algumas áreas do cérebro podem transmitir informações e comandos incorretos, por exemplo, em uma crise de pânico a informação incorreta alerta e prepara o organismo para uma ameaça ou perigo que na realidade não existe.

O tratamento recomendado, e que atua de forma substancial nas crises, na ansiedade e na prevenção de novas crises são os psicofármacos. Todos os grupos de antidepressivos mostraram-se eficazes, os tricíclicos, os tetracíclicos, os ISRS (inibidores seletivos da recaptação da serotonina) e os IMAOs (inibidores da MAO). Os antidepressivos têm sua eficácia comprovada em outros transtornos comportamentais além da depressão, isso porque atua no equilíbrio da serotonina (neurotransmissor que traz bem-estar ao indivíduo). O tempo de ação terapêutica para antidepressivos geralmente não é inferior a 20-30 dias. Por essa razão, a associação com outro tipo de medicação, os benzodiazepínicos ou ansiolíticos é uma boa estratégia, já que estes sim trazem importante alívio das crises já no início do tratamento.

O tempo deste tratamento vai depender da resposta do indivíduo à medicação e ao tratamento psicoterápico, outra intervenção fundamental para o transtorno do pânico.

Tratamento com TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental)

Sujeito às “informações e comandos incorretos” o organismo do indivíduo com pânico se prepara para um perigo que na realidade não existe. A sensação freqüente de perigo e a interpretação distorcida e catastrófica dos sintomas físicos leva, não raro, o paciente a evitar ou se esquivar de situações nas quais os ataques ocorreram, ou que ele tema que possa ocorrer.

A TCC é um processo de aprendizagem, que ensina ao paciente como reavaliar e reestruturar seus pensamentos de forma mais funcional, em relação à segurança, à avaliação das crises, ao medo de outras crises e à agorafobia, além de fornecer exercícios que facilitem o controle da ansiedade e da própria crise. Modificando a interpretação, modificam-se também os sentimentos (ex: medo, insegurança) e comportamentos (ex: esquiva, evitação) decorrentes desta.

O tratamento cognitivo-comportamental do pânico, conta com várias estratégias (técnicas cuja eficácia tem comprovação científica) que se sobrepõe no que diz respeito às intervenções, dentre elas: o treino de habilidades de manejo de sintomas corporais; o treino respiratório para previnir a espiral do pânico; a ênfase na exposição interoceptiva dos sinais corporais temidos e a eliminação da tendência persistente de interpretar de forma distorcida e catastrófica as sensações corporais.

Vale enfatizar que o transtorno do pânico não afeta permanentemente o funcionamento cognitivo do paciente. Portanto, estando este comprometido com seu tratamento medicamentoso e psicoterápico, suas chances de retomar e tornar sua vida mais saudável e prazerosa são enormes!

Giovanna Vasconcelos

Bibliografia

Barlow, D.H.; Cerny, J.A. Tratamento psicológico do pânico; trad. Maria Cristina Monteiro. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

H Katschnig and M Amering, The long-term course of panic disorder and its predictors, J Clin Psychopharmacol 18 (1998), pp. 6-11S.

Kaplan e Sadock. Compêndio de Psiquiatria . Artmed, 2002.

Rangé, B. (org.). Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

RC Kessler, WT Chiu, O Demler, KR Merikangas and EE Walters, Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication, Arch Gen Psychiatry 62 (2005), pp. 617-627.

Silva, A.B. Mentes com medo: da compreensão à superação. São Paulo: Integrare Editora, 2006.

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